Em “California Schemin’”, sua estreia na direção, dois rappers escoceses fingem ser americanos para triunfar na indústria. O projeto acabou sendo muito mais pessoal do que ele imaginava.
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Photoshoots & Portraits > Por Max Miechowski para a NYTimes – Outubro 2026
Quando James McAvoy estrelava uma adaptação televisiva de “Macbeth”, cerca de 20 anos atrás, o diretor o chamou de lado e pediu que ele suavizasse seu sotaque escocês.
McAvoy, natural de Glasgow, recorda-se de ter ficado perplexo e irritado. “Você sabe que ela é chamada de ‘a peça escocesa’?”, disse ele em uma entrevista recente. Ele decidiu ignorar a orientação: “Receio que vou fazer do meu próprio jeito neste papel”.
Essa atitude de desdém em relação à entonação escocesa é comum, afirmou McAvoy. “Faz parte da experiência escocesa”, disse ele, e “meio que reduz você apenas ao seu sotaque”.
Foi em parte por isso que McAvoy, aos 47 anos, quis fazer o filme “California Schemin’”, sua estreia na direção, que chega aos cinemas dos EUA nesta sexta-feira. Trata-se de uma comédia baseada na história real de dois aspirantes a rappers escoceses que, no início dos anos 2000, são rejeitados e ridicularizados pela indústria fonográfica devido aos seus sotaques. Então, numa versão invertida da história do Milli Vanilli, eles fingem ser da Califórnia para tentar conseguir um contrato com uma gravadora — e a estratégia funciona.
Ao buscar seu primeiro projeto como diretor, McAvoy disse: “Não precisava ser algo escocês. Mas, quando isso chegou às minhas mãos, pensei: tem que ser este”.
No filme, a dupla de rappers — Gavin Bain e Billy Boyd — está na casa dos 20 anos e vive em um conjunto habitacional em Dundee, cidade onde parte das filmagens foi realizada. Na trama, eles circulam pela cidade, vestindo roupas de skatista e exibindo pelos faciais de gosto duvidoso, enquanto ensaiam suas letras. Eles também entram em contato direto com gravadoras, na esperança de uma oportunidade. Quando Bain faz um rap ao telefone em uma das primeiras cenas, um funcionário da gravadora responde: “Adoro música em língua estrangeira — é linda”.
O plano deles ganha forma depois que Bain e Boyd são ridicularizados em um teste e chamados de “Proclaimers que fazem rap” — um episódio baseado em um fato real. “Não era da música que eles estavam rindo; era de nós”, diz o personagem de Bain no filme.
Então, eles treinam seus sotaques americanos usando falas de “Friends” e “Forrest Gump” e começam a se apresentar como Silibil N’ Brains. O plano é levar a farsa longe o suficiente para revelá-la na MTV e constranger a indústria musical. Mas as armadilhas do sucesso se mostram tentadoras, e eles continuam se apresentando, festejando e gastando desenfreadamente o dinheiro da gravadora.
Séamus McLean Ross, de 25 anos, natural de Glasgow e intérprete de Gavin, disse que, para os rappers, a realidade era a de “esse alter ego se tornando maior do que aquele que existia antes”.
McAvoy afirmou que Bain e Boyd, de certa forma, sacrificaram sua autenticidade — o “coração e a alma do hip-hop” — para romper uma “barreira invisível que não conseguiriam superar de outra maneira”.
Ele se identificou com parte dessa pressão por ter crescido em uma área barra-pesada de Glasgow que, segundo ele, também era “cheia de aventura, diversão, emoção e perigo, sexo e situações de alto risco”.
McAvoy disse que não queria fazer “apenas mais um drama cru e realista”.
“Eu também queria que fosse divertido. Porque sinto que poucas pessoas com esse tipo de origem no Reino Unido têm suas histórias contadas de forma vibrante, divertida e dinâmica.”
É comum haver uma atitude de desdém em relação ao sotaque escocês, disse James McAvoy.
“Faz parte da experiência escocesa”, acrescentou McAvoy, e “meio que reduz você apenas ao seu sotaque”.
McAvoy disse que a indústria cinematográfica da Escócia tendia a atender ao público dos Estados Unidos, seu maior mercado, o que significa muitos “caras correndo por aí de kilt” em dramas de época como “Outlander”.
“Acabamos contando histórias sobre nós mesmos, não para nós mesmos”, disse ele, acrescentando: “Acabamos subestimando o nosso próprio povo”.
Lucy Halliday, de 23 anos, a atriz escocesa que interpreta a namorada de Boyd (uma das poucas pessoas que sabiam do truque), disse:
“Não acho que daria para fazer esse filme sem um diretor escocês”, ou sem alguém comprometido em torná-lo o mais “fiel possível à Escócia”.
No filme, o golpe da dupla Silibil N’ Brains dura alguns meses. Na vida real, eles mantiveram os personagens por mais de dois anos. Eles nunca lançaram um álbum e não conseguiram apresentar documentos de identidade americanos quando assinaram um contrato. Mas chegaram a um nível de fama suficiente para abrir os shows do D12, o grupo de rap de Eminem.
“Uma das coisas que os caras de verdade perceberam foi que, quanto pior eles se comportavam, melhor a indústria musical os tratava”, disse McAvoy; eles chegaram até a negociar um programa de TV no estilo “Jackass”. Mas a pressão de manter a farsa começou a pesar sobre eles, até que tudo desmoronou.
Embora ambos tenham continuado a fazer música, Boyd e Bain — na vida real — raramente voltaram a trabalhar juntos. Cada um escreveu suas memórias — o livro de Bain, California Schemin’: How Two Lads from Scotland Conned the Music Industry, deu origem ao título do filme — e Boyd compôs e interpretou uma música para a produção.
Um documentário de 2013, The Great Hip-Hop Hoax, reapresentou o caso ao público; foi nessa época que McAvoy disse ter começado a se interessar de verdade pelo assunto, embora, na ocasião, ele “não estivesse realmente pronto para fazer um filme”.
Anos mais tarde, porém, McAvoy disse sentir “muito orgulho” de ver um filme realizado que espelhava sua própria experiência: “Eu não tinha noção de quão pessoal aquela história seria para mim.”
Fonte: NYTimes.com